Seminário em Florianópolis abordou habitação de interesse social, transformação digital, construção industrializada e qualificação profissional, com experiências do Brasil e de Portugal
Como transformar as tecnologias disponíveis em soluções que melhorem a qualidade das moradias, reduzam desperdícios e ampliem a eficiência da construção civil? Essa questão esteve no centro do 4º Seminário Construções Inteligentes e Sustentáveis: O Futuro da Habitação, promovido pelo Senge-SC nesta terça-feira (6), no auditório do CREA-SC, em Florianópolis. Com patrocínio do Conselho e transmissão pela TV Senge-SC, o encontro reuniu apresentações sobre políticas habitacionais, BIM, inteligência artificial, industrialização, eficiência energética e formação profissional.

Na abertura, a presidente do Senge-SC, engenheira Roberta Maas dos Anjos, ressaltou a parceria com o CREA-SC e explicou que esta edição colocou a habitação como foco dos debates. Ao recordar as experiências com construção em madeira apresentadas na edição anterior, vinculada à Conexão Suécia, destacou a importância de aproximar os profissionais de tecnologias que já permitem reduzir o tempo de execução e a geração de resíduos. “A gente pode melhorar as técnicas construtivas”, afirmou.
Representando o CREA-SC, o engenheiro agrônomo Felipe Penter reforçou a importância da atualização profissional e da aproximação entre as entidades e as novas tecnologias. Em sua fala, relacionou a inovação à possibilidade de realizar obras mais rápidas, com menores custos e menos resíduos, além de enfrentar as dificuldades de contratação de mão de obra. Também reafirmou o compromisso com a continuidade da parceria com o Senge-SC.

Habitação de interesse social e inovação
A programação técnica começou com o engenheiro civil Caetano Palma Neto, coordenador da Comissão de Habitação de Interesse Social do CREA-SC. Ele apresentou ações voltadas à aproximação com os municípios e ao fortalecimento de sua capacidade técnica para desenvolver políticas habitacionais, especialmente nas cidades que dispõem de equipes e recursos limitados.
Entre as iniciativas, Caetano relatou o desenvolvimento de propostas para reduzir os custos do projeto Banheiro Digno, com soluções modulares e possibilidade de autoconstrução assistida por profissionais. Também abordou a articulação para capacitar gestores na elaboração e atualização dos planos locais de habitação de interesse social, o apoio à regularização fundiária e a preparação de uma cartilha com orientações e referências técnicas.
O engenheiro ressaltou que a moradia precisa ser pensada em conjunto com infraestrutura, saneamento, transporte, serviços públicos e planejamento territorial. Defendeu que a atuação técnica contribua efetivamente para superar situações de precariedade habitacional e que as novas tecnologias também cheguem às famílias de baixa renda.
Na sequência, o assessor da presidência do CREA-SC, Eduardo Bridi, apresentou o Ágora LIV, projeto Moradia do Futuro, em Joinville. A proposta prevê um ambiente de experimentação no Ágora Tech Park, inserido no Perini Business Park, para testar materiais, sistemas construtivos e tecnologias aplicadas à habitação.
Bridi explicou que o espaço foi concebido para se transformar continuamente, permitindo substituir componentes e incorporar novas soluções. O projeto reúne ambientes de moradia, trabalho e operação, com propostas de eficiência energética, automação, conectividade e gestão de recursos. Ao relacionar a iniciativa ao tema do seminário, também defendeu que os avanços da construção inteligente contribuam para a habitação social. “A ideia é colocar a engenharia na inovação e a inovação na engenharia”, sintetizou.
Dados, processos e capacitação
A integração entre BIM e inteligência artificial foi abordada pelo engenheiro Peter Paredes, da AltoQi. O palestrante mostrou que o potencial dessas ferramentas depende da organização e da conexão das informações produzidas ao longo do empreendimento, desde a concepção e o projeto até o orçamento, o planejamento e a execução.
Segundo Paredes, dados dispersos em arquivos e sistemas isolados dificultam o aproveitamento da inteligência artificial. Sua apresentação enfatizou a importância da interoperabilidade e de soluções que permitam levar informações de uma etapa à outra, favorecendo análises e decisões apoiadas no contexto real de cada obra.
A engenheira civil Késia Alves da Silva, da Conexão BIM, aprofundou o debate sobre capacitação na era digital. Ela alertou que a transformação não se resume à aquisição de softwares: exige processos definidos, gestão da informação, preparação das equipes e objetivos claros para a aplicação do BIM.
Késia defendeu a combinação entre aprendizado e prática orientada, com projetos-piloto que permitam incorporar o conhecimento à rotina das organizações. Também ressaltou que contratantes, gestores, projetistas, fornecedores e equipes de obra têm necessidades distintas de formação, e que os resultados da implementação precisam ser acompanhados.
A experiência internacional foi apresentada, de forma online, pelo arquiteto Miguel Costa, diretor comercial da Bluefab, do Grupo Casais, de Portugal. Ele mostrou como a construção industrializada articula planejamento, desenvolvimento de soluções, fabricação e montagem, com exemplos de banheiros produzidos fora do canteiro e entregues com suas instalações integradas.
A apresentação relacionou a industrialização à maior previsibilidade de prazos e custos, ao controle de qualidade, à redução de desperdícios e à segurança no trabalho. Costa também destacou a importância de incorporar essa lógica desde a concepção dos projetos, reunindo os diferentes envolvidos para compatibilizar as soluções com a produção industrial.
No período da tarde, o engenheiro de produção Gabriel Dantas de Souza, da DeskGraphics, parceira Autodesk, apresentou o ambiente comum de dados, conhecido pela sigla CDE. A palestra mostrou como a centralização das informações pode apoiar a colaboração entre equipes, o controle de versões, a revisão de projetos e o acompanhamento de alterações, reduzindo falhas de comunicação e retrabalho.
Energia solar e carregamento de veículos elétricos em residências foram os temas do engenheiro eletricista Marcos Paulo Hirth, da HR Soluções em Energia. Ele abordou a integração entre geração fotovoltaica e mobilidade elétrica, além da necessidade de prever a infraestrutura de recarga nos projetos e dimensionar adequadamente as instalações e os dispositivos de proteção.
O engenheiro civil Guilherme Bortolotto Pansanato, da Petinelli, apresentou experiências de edifícios de alta performance e discutiu a relação entre sustentabilidade, eficiência e conforto. Sua exposição mostrou estratégias para reduzir o consumo de energia e água e melhorar as condições dos ambientes, defendendo que as certificações sejam consequência do desempenho alcançado pelas edificações.
A formação para a construção industrializada foi abordada por Maria Teresa Fernandes de Resende, do Instituto de Tecnologias de Industrialização das Edificações (ITIE). Ela destacou que a mudança dos sistemas construtivos exige também uma nova forma de pensar e organizar o trabalho, com integração entre projeto, fabricação, transporte, montagem e operação.
A palestrante defendeu uma visão do empreendimento como um todo e o desenvolvimento de competências para conectar essas etapas. Também ressaltou que diferentes materiais e sistemas podem ser combinados conforme as necessidades de cada projeto, ampliando as possibilidades de atuação de engenheiros e arquitetos.
Encerrando as apresentações, a arquiteta Zan Dekker, da BeeLab Arquitetura Modular, compartilhou experiências de aplicação de sistemas industrializados no canteiro. Ao apresentar projetos com estruturas metálicas e painéis, mostrou como a fabricação de componentes e a montagem planejada podem reduzir etapas de execução e tornar o processo mais previsível. A exposição também abordou a importância da qualificação das equipes e da escolha de materiais com desempenho comprovado.
Visita técnica
A programação foi concluída nesta quarta-feira (7), com uma visita técnica ao empreendimento Makai Beachfront, do Grupo Cassol, no bairro Campeche, em Florianópolis. Os participantes foram recepcionados pelo CEO do Grupo Cassol, Felipe Cassol. A atividade também contou com a presença do prefeito de Governador Celso Ramos, Marcos Henrique da Silva.
Durante o percurso pelos diferentes ambientes da obra, o grupo conheceu soluções em pré-moldados e sistemas de vedação, aproximando os conteúdos discutidos no seminário de sua aplicação prática. A visita permitiu observar a importância da escolha e da integração dos sistemas construtivos, assim como do planejamento e da organização do canteiro para a execução do empreendimento.
Com avaliação muito positiva dos participantes, a atividade complementou os debates e proporcionou uma oportunidade de aprendizado sobre tecnologias e processos que já estão transformando a construção civil.













































