Planejamento abre as portas do êxito na profissão
Um jovem executivo de uma indústria de bebidas descobriu, há pouco tempo, o motivo da sua insatisfação no trabalho. Empregado há cinco anos na companhia, ocupa a coordenação de vendas, depois de passar por três promoções. Como se trata de uma grande empresa, ainda haveria um longo caminho a trilhar, mas ele não se sente nem um pouco animado.
A cultura da empresa não bate com o meu perfil', diz ele, que reclama, principalmente, dos critérios usados para promover profissionais a cargos mais altos. 'Acontece por pura indicação, a competência não é avaliada.' Com menos de 30 anos, ele está disposto a partir para o mercado em busca de um novo empregador, só que, desta vez, aquele em que as regras para crescer sejam bem claras.
Esse profissional é exceção no mercado de trabalho. Isso porque soube identificar, logo no início da carreira, o que muitas pessoas às vezes demoram anos para descobrir: a causa da insatisfação em um emprego que, aparentemente, vai bem.
'Boa parte dos executivos costumam olhar apenas o salário e os benefícios que serão oferecidos em um novo emprego, sem contar com o intangível, o que compromete o plano de carreira', diz Luciana Sarkozy, sócia da Career Center, empresa que acaba de entrar no mercado para atender pessoas físicas no planejamento do futuro profissional - seus clientes vão desde adolescentes que acabam de prestar o vestibular até executivos seniores. 'É preciso analisar, antes de tudo, qual a cultura da empresa e o estilo de gestão do futuro chefe', diz Luciana.
'Muitas vezes, o profissional que muda de emprego de dois em dois anos, e continua insatisfeito, não está levando em conta esses fatores.' A sócia de Luciana, Karin Parodi, completa. 'Há quem troque de emprego por compensações financeiras, ou mesmo porque acredita que determinada empresa vá lhe acrescentar maior peso ao currículo'. Dessa forma, comprometem a carreira, ao fazer escolhas equivocadas. 'Quanto mais cedo esse executivo fizer um redirecionamento da sua posição no mercado, melhor'.
É o que procura fazer, por exemplo, Mauro Brasil. Aos 35 anos, o executivo, formado em matemática e administração, começou sua carreira no mercado financeiro. Fez mudanças precipitadas de emprego e aceitou propostas sem avaliar detalhadamente o impacto da nova função na carreira. A última mudança, para um novo projeto da Sul América Investimentos, foi desastrosa: Brasil, na verdade, estava superqualificado para o cargo e, alguns meses depois, foi eliminado.
Agora, prepara-se para nova investida em finanças - mas, desta vez, tem bem definidas as áreas de interesse: tesouraria, asset management, private equity ou a área financeira de empresas. 'Antes, se me perguntavam o que eu queria, não tinha certeza e achava qualquer experiência válida', diz Brasil, que procurou uma empresa especializada para auxiliá-lo no planejamento da carreira. 'Eles me ajudaram a descobrir que sou melhor do que pensei e que não há mal algum em ressaltar suas qualidades para o futuro empregador, desde que elas possam ser comprovadas.' Na última semana, ele passou duas horas e meia em uma entrevista de emprego. 'Tinha de convencer o interlocutor que era a melhor pessoa para o cargo.' A próxima fase será a entrevista com o presidente da instituição.
Para o consultor Paulo Apsan, da Arthur D. Little, a primeira coisa que o profissional deve definir é o que ele não gosta de fazer. 'Eliminar funções que não se adequam ao seu perfil torna a seleção mais fácil.' A partir daí, o executivo precisa analisar quais as próprias competências e identificar no mercado as melhores empresas em que elas poderiam ser empregadas.
Ainda é preciso trabalhar sua rede de relacionamentos e chegar até pessoas que tomam decisões na companhia, candidatando-se para atuar, voluntariamente, em grupos de trabalho. Apsan só dá um aviso: 'Conte com o imponderável. Ninguém tem certeza do que pode acontecer.'
Quem planeja a carreira do analista de sistemas João Marcelo Monteiro Machado é o acaso. Desde que concluiu o curso de Engenharia de Telecomunicações, na Universidade Federal Fluminense (UFF), em 1994, não fez muitos planos acerca do seu futuro profissional. 'Nunca consegui estágio na área, o que me forçou, involuntariamente, a atuar com informática', diz. A casualidade é vista por João hoje como recompensa.
Aos 31 anos, ele se diz bastante satisfeito com a mudança de rumo. Depois de passar pela Origin Brasil, como analista de sistemas júnior, o engenheiro abriu a própria empresa e presta serviços para a Rio Sul Linhas Aéreas há quatro anos. 'Chego a ficar constrangido quando um amigo da faculdade pergunta sobre o meu salário. Ganho cerca de 50% a mais do que a maioria deles, geralmente bem colocados nas empresas de telecomunicações.'
Para o analista, a volta para sua área de origem seria um recomeço. 'Teria que abrir mão de muita coisa, mas não descarto a possibilidade e, pela primeira vez, começo a fazer planos.' O primeiro passo será ingressar num MBA no próximo ano. 'Como não tenho experiência na área, preciso adquirir algum conhecimento acadêmico', diz. Depois do MBA, a iniciativa seguinte é o contato com pessoas-chave.
João é um exemplo de que nem sempre a falta de planejamento resulta em uma carreira mal sucedida. 'Esse executivo seguirá uma carreira intuitiva', diz o consultor Paulo Apsan, da Arthur D. Little.
Mas há quem prefira o modo tradicional. Desde que se formou em psicologia, Ana Rosa Guirardi, gerente de comunicação da Nova América, do ramo de agribusiness, sonhava em trabalhar na empresa, situada na região de Assis, interior de São Paulo. O desejo tornou-se realidade seis meses depois da conclusão do curso, há onze anos. Dentro da companhia, Ana sentiu que poderia crescer profissionalmente. 'Fiz cursos de especialização em marketing e segui para a área de comunicação'.
Hoje, aos 34 anos, ela não faz projetos para trocar de emprego, mas não elimina tal alternativa. 'Planejo minha carreira de acordo com os cursos que faço'. Para dar continuidade ao aperfeiçoamento, Ana Rosa acaba de começar um MBA em gestão de negócios, com ênfase em agribusiness. Não fosse patrocinado pela Nova América, ela poderia até pensar em trocar de empresa tão logo o MBA terminasse, em setembro de 2002.
'Terei que ficar na companhia por pelo menos mais 12 meses', diz. 'Acho importante conhecer estratégias de outros grupos'. A mudança de emprego, para ela, significaria também trocar de cidade. Uma decisão que a executiva não está disposta a tomar agora. 'Tenho uma filha de sete meses e este não é o momento'.
Jornal Gazeta Mercantil - 24/04/01